domingo, 26 de abril de 2009

Buenas! Depois de uns bons dias sem escrever nada, vortei. Não é que eu fiquei sem escrever nada, já tentei escrever duas vezes sobre meu atual paradeiro mas nas duas desisti. É impossível escrever sobre São Gabriel da Cachoeira. Escrever até dá - eu estou começando a quarta linha nesse momento - o que não dá é querer que essas palavras passem o que é esse lugar aqui. Talvez o que chegue mais perto é o que eu disse na última vez que eu deixei algo escrito aqui, SGC não existe, é uma cidade imaginária, uma obra de ficção. Vocês não imaginam a confusão que é estar em um lugar que não existe. Pelo menos pra mim, tão acostumadinho (esses padrões burgueses ...) com a coisas sempre existindo ao meu redor. O Ítalo Calvino tem aquele livro, "Cidades invisíveis", em que ele vai descrevendo uma cidade mais maluca que a outra e você não sabe direito onde aquilo é verdade onde não é se aquilo que ele descreve lá existe mesmo, seja lá em qual nível. Pois é, São Gabriel da Cachoeira é uma cidade invisível. E Imaginária e irreal e impossível. É o lugar mais inacreditável que eu já vi. Daí que o melhor jeito de falar dele é falar um monte de coisa meio sem ordem muito certa, lembranças, observações, dados objetivos, daí quem tiver lendo que crie sua própria lógica, sua forma de juntar tudo. Realidade material e devaneios, miséria braba e mundo miraculoso palpável, tudo misturado em um lugar que não existe, em uma cidade inventada no fim do mundo. É nóis em São Gabriel da Cachoeira, a cidade com maior número de indígenas do país.

- Antes de tudo, uma pequena correção, eu não estou mais em nosso país. Aliás eu não estou mais nem nem na Terra. Se a região Norte do Brasil parece outro planeta, São Gabriel é realmente em outro planeta. Dá pra ver a Terra daqui, nem é tão azul assim como dizem. Até que é meio perto. È até estranho, porque esse lugar é tão louco que parece outra galáxia. È verdade, acreditem.

-Esse lugar é uma "falha na Matrix" que não passa. Aqui, a realidade ordinária é uma "falha na Matrix" constante. Não estou brincando, é verdade mesmo. O tempo todo você vê cenas que incluem muitos mundos e tempos dissonantes. Hoje no por do sol tive a impressão de ter visto um pterodátilo, mas só que foi rápido, não deu pra ter certeza. Amanhã eu confirmo, deve ter sido mesmo.

- Existe um portal mágico no Rio Negro que vai parar direto na Índia. Eu lembro na hora que passou, só que como eu não sabia o que era nem atinei. Só descobri aqui. Na verdade estou em Varanasi. Não estou brincando, é verdade mesmo. A Índia fica no noroeste do Amazonas, ou vice-versa. E ambos (que são o mesmo) ficam em outro planeta que parece outra galáxia. E são invisíveis. Sacou?

- aqui vende cozido de paca na feira.

- são 22 etnias, umas quinze línguas (fora o português e espanhol), faladas por todos os lugares e de maneira misturada. Ouvi uma conversa de maku misturado com portunhol na fila do Banco do Brasil. Outro dia, um tariana que estudou em um seminário para ser padre falou comigo em francês e em inglês sem perceber direito (tinha tomado umas duas a mais, o normal é ele falar umas das cinco línguas indígenas que ele conhece). Estávamos de frente para uma maloca que fica na cidade e com a gente tava também um pajé Baré que tinha ido estudar medicina em Cuba, só que não passou nas provas. Não lembrava o nome da cidade, precisou de três copos de caxiri pra ele dar um grito na minha orelha, "Havana!!". Ele agora mora em uma aldeia baniwa que fica a três dias de canoa de São Gabriel. Lá, é pajé e enfermeiro. Devia ter perguntado o que ele acha do Fidel, vacilei.

- A paisagem é tão estonteante que a linguagem linear não dá conta de descrever. Teve um dia que eu passei o dia lendo sobre os mitos dos índios dos Uaupés (um rio daqui) e fui tomar banho de rio no fim da tarde. Entendi que o que eu estava vendo não era bonito, deslumbrante, estonteante ou milongas que tais. Era a aldeia celeste onde chegamos quando a sucuri gigante abre a terra para a lua sair. A palavra mítica dá sentido a esse lugar, a outra, linear e xôxa, é o holograma da Matrix. Mas esse falha toda hora. Ainda bem.

-Dexa eu tentar descrever melhor esse papo de Matrix. Vou tentar ser bem explicadinho, porque o negócio é enrolado. No filme lá tem dois mundos, aqui não, é pelo menos três. Mas começa com dois. Assim ó, tem dois básicos, o mundo do indígena e do não-indígena ou, como eles dizem, tem o jeito do índio e o do branco. Esses dois se explicitam de muitas formas, divisão sócio-econômica, um anda a pé e o outro de carro, um tem um ritmo frenético esquizofrênico e o outro tá sentado em uma pedra olhando o invisível. Um tem um convívio hipnotizante com o rio, o outro com tudo que lembra Manaus-São Paulo-Nova York. Claro que essas duas bandas se interpenetram, e que tem hora que se confundem, não é oito e oitenta, mas fica bem clara essa divisão. Daí que o mundo indígena também e dividido em dois, esse mundo (visível) e o espiritual (invisível). Nesse mundo daqui funciona uma linguagem mais prática. O espiritual se traduz pela linguagem mítica. Daí fica três mundos então: o mundo do não-índigena, o mundo do indígena e o mundo mítico (que na verdade são vários, depende da etnia). Intão, Matrix aqui disfarça o real de asfalto, mas tamém disfarça de rio, já que "na verdade" o real é uma cobra mítica seja de asfalto, seja de água. Na verdade, verdade verdade mesmo, o real aqui em São Gabriel é o convívio desses três mundos o tempo todo, o mundo real é um quarto mundo onde esses três mundos vão se combinando de diferentes formas, cada hora um aparecendo mais, as vezes dois, sempre uma confusão, mas com uma harmonia misteriosa de fundo ligando os pedaços. São Gabriel é um caleidoscópio em movimento. Os mundos são as diferentes pedrinhas. Uma cobra que vira uma rua que vira um rio que é uma cobra. Uma rua de asfalto te leva até a aldeia celeste. Crianças se banham em uma cobra mítica. Pedaços de plástico são cada vez mais freqüentes nas corredeiras do Rio Negro. Caleidoscópio mítico-invisível-transcedental-indiano em outro planeta de outra galáxia da Matrix via interneti. Tudo isso falado em quinze línguas e com um sonzinho distante de cítara ao fundo.

E aí, deu pra entender?

- 90% da população daqui é indígena, só que são os 10% não-indígenas que botam a mão na grana toda. Muitos cearenses comerciantes, militares e profissionais da saúde. Os indígenas vivem uma situação de muita pobreza e enfrentam sérios problemas com alcoolismo, abandono familiar e prostituição infantil.Tem uns tres ou quatro aqui que eu amarraria lambuzado de mel encima de um formiguero.

- Desde que eu cheguei aqui que eu repito uma frase várias vezes por dia: "Esse lugar não existe."

- Outro dia fiz amizade com um ianomâmi. Ele me cumprimentou com um aperto de mão e não largou mais. Enquanto a gente falava ele passou um tempo segurando a minha mão e balançando ela de leve. O Gélio foi criado em Manaus e hoje está no exército. A maioria do pelotão aqui de São Gabriel é formado por indígenas. Tenho muita vontade de conhecer melhor os ianomâmi.

- Dia 19 de abril, dia do índio, teve um evento no ginásio da cidade. Minha amiga Marília pediu minha máquina digital para gravar a apresentação de uns jovens com quem ela trabalha. Era o grupo de street dance de São Gabriel.

...

- Nesse mesmo dia ouvi um diálogo entre um Tukano e um professor universitário de Manaus. Falavam de mudanças climáticas. O líder tukano falou da astronomia do seu povo, de uma tartaruga feita de estrelas e perguntou a visão do professor. O professor citou o zen, retornou com outra pergunta e falou da nossa possibilidade de capturar a não-matéria. Pelo que eu pude perceber, parece que eles se entenderam muito bem. Coisas de Varanasi...

-Eu andando para lá e para cá com uma máquina digital. De vez em quando, uma fotinho. Num tô dizeno que esse lugar é uma falha na Matrix...

- Aqui tem muitas igrejas evangélicas.

- O canal a cabo da casa da minha amiga tem muito mais canais de filmes que os que eu conheci em São Paulo. Outro dia passou na varanda o maior lagarto que eu já tinha visto, parecia um jacaré. O "quintal" da Marília é uma floresta que só acaba na Colômbia. Na TV estava passando Friends.

- Quando você entra no rio aqui em São Gabriel nada mais importa.

- Outro dia eu tava na rede e vi um moleque fazer cocô no mato e comer um pão ao mesmo tempo. Não sei direito porque, mas acho que isso tem a ver com tudo isso que eu estou escrevendo.

- O beiju daqui e totalmente insosso. É pra servir de contraponto com todo o resto.

- Aqui em São Gabriel entendi o que leva esses sadhus indianos a sentar no chão e levantar o braço sem abaixar durante trinta anos. Depois de conhecer São Gabriel acho essa atitude muito coerente.

- Em São Gabriel existem cerca de 550 comunidades indígenas. São 25.000 pessoas em uma área do tamanho da metade do Estado de SP. A menor densidade demográfica do Brasil. É só mata e rio. Sabe quando você manda alguém "lá pa puta qui pariu"? Intão, é aqui.

- A estrutura urbana da cidade é feia, sem planejamento e cheia de problemas típicos de uma cidade grande. O grande fluxo de capital aqui para São Gabriel (por causa dos milico e das ongs) e a conseqüente disparidade social faz com que a cidade tenha problemas como alto índice de violência juvenil, roubo e tráfico de drogas em proporções gigantes para o tamanho da cidade. Boa parte dos habitantes vive em bairros semi favelizados na periferia da cidade. O centro da cidade - feio e barulhento - é, de longe, a coisa que mais parece um holograma fictício por aqui. É totalmente desconjuntado com o meio, esquisito de tudo, totalmente dispensável. O Keanu Reeves podia muito bem reprogramar essa parte.

- É comum ver indígenas caídos de tanto beber pelas ruas da cidade.

- Diz que tem um pajé ianomâmi na região que outro dia derrubou um helicóptero só na reza. A história é meio famosa por aqui, muita gente diz que é verdade mesmo. Mas não pense que foi fácil, ele quase não conseguiu.

- Outro dia fui em uma espécie de condomínio de militares aqui. Parecia a "ilha da fantasia". Juro que se o Tatu - aquele anãozinho de paletó branco e voz de apito engasgado - viesse me receber eu não ia achar estranho.

- As crianças indígenas só andam em bando, pescam, tomam banho de rio e ficam trepando em árvore o dia inteiro. As crianças indígenas são igualzinhas às caipira, só que completamente diferente.

Acho que por enquanto é isso, depois eu volto. E vai demorar bem menos agora Até.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Olá!

Depois de um pouco mais de dois meses, finalmente cheguei a São Gabriel da Cachoeira (SGC). Do Maranhão até aqui é um degradê (é assim que escreve?) perfeitinho do negro pro índio. De São Luis, onde a população é quase toda negra até aqui, onde todo mundo é indígena (fora os cearense, é claro).

No trajeto, a mudança gradativa, bem matizada mesmo, muito legal, cada lugar que você vai chegando vai vendo os traços irem se modificando, indo mais pro indígena, o Pará é o meio do caminho, puta miscigenação, daí quando começa o Amazonas já é bem mais indígena e aqui em SGC intão... SGC é uma cidade completamente diferente de tudo. Mas antes disso, a chegada até aqui. Da última vez que escrevi estava em Manaus, na véspera da saída para Barcelos, uma cidade que fica no Rio Negro, no caminho daqui para Manaus. Escolhi passar uns dois dias lá ao invés de ficar parado em Manaus. Daí que eu peguei mais um barco, mais dois dias, mais água e floresta sem fim.

O Rio Negro é maravilhoso. Entre ele e o Tapajós o páreo é duro. Só de lembrar do Tapajós agora que eu escrevi parei para ficar lembrando um pouquinho. O rio conversa com a gente, é impressionante, ele é lindo, azul, vivo, antigo, cheio de memória dos tapajoaras que viveram ali há 8000 anos, muitos dizem que foram os primeiros daqui. Tudo isso o rio te fala, ele é muito muito vivo, parece um amigo que eu fiz na viagem. Vontade de voltar lá e passar aqueles quarenta dias pelas comunidades ribeirinhas. Já pensou... Mas agora eu tô no Negro. É deslumbrante. Ele é negro mesmo, e eu acho que tem a ver com isso ele formar um espelho perfeito com a floresta e o céu (que é imenso também, nunca vi umas nuvens tão grandes). O céu por aqui é bem mais bonito que mais para trás, não é tão nublado, tem estrela, por do sol, nuvens cheias de formas.
Daí imagina então, floresta sem fim, um céu deslumbrante, tudo isso dobrado no espelho do rio (que dependendo da hora fica roxo, prata, não é só negro não). Tem hora que dá vontade de chorar de tão lindo que é, parece até meio mentira, efeito de alucinógeno sei lá. E é durante muito tempo, é comprido, três quatro, cinco dias, ce dorme, come, joga dominó, conversa, e continua lá, num passa o efeito. E eu descobri que esses números são porque estou navegando nos grandes rios, que são como avenidas principais. Se vc vai para as quebradinhas, que são infinitas, são 15, 20, 25 dias! E são barcos pequenos, canoas grandes bem dizer, de sete, oito metros de comprimento por uns dois de largura. O pessoal vem trazer coisas para vender (açaí, piaçava, tucumã) e levar produtos. Ou então agentes de saúde, alguém da prefeitura, essas coisas. Muitos vivem mais nesses barcos que em casa. Muitos, o barco é a casa. Famílias inteiras – e grandes – nesses barquinhos, cruzando os rios e igarapés dias e dias, parando pra pescar, caçar, dormir. Nos portos das cidadezinhas e vilazinhas do caminho você vê um monte deles, de vez em quando passa um margeando a floresta (pelo que entendi eles não gostam de andar muito nos rios grandes, só quando precisa) cheio de criança se trepando e uma montanha de açaí ou outro produto extrativista, uma fumacinha de alguma comida e adultos de cócoras, as vezes uma rede. Cena típica desse pedaço de mundo aqui.
Aliás, há outras coisas que participam o tempo todo da vida cotidiana daqui e que eu tenho a impressão de que pouco se fala delas, fica sempre se martelando os grandes temas – ribeirinho,caboclos, a imensidão da floresta, etc – e se esquecem coisas “desimportantes” que falam muito sobre a vida daqui. Por exemplo, o DVD acústico do Amado Batista! Vocês sabiam que o Amado Batista gravou um DVD acústico? Pois é, impossível não descobrir isso aqui no Norte. Ele está passando em quase todas as televisões de restaurantes, botecos e vendinhas daqui. Já decorei metade das músicas, a ordem delas, os artistas convidados e tudo. Aliás, cresceu em mim algo que eu já tinha, mas que a falta de um ambiente favorável nunca permitiu que ganhasse uma forma mais nítida. Descobri, perdida no fundo de minhas memórias não visitadas, uma admiração pelo Amado Batista. Não sei direito porquê, talvez só porque ele tem um jeito de ser gente boa, talvez porque as musicas dele me remetem diretamente a minha infância perambulando entre os nordestinos da Vila Sonia, sei lá, sei que acho o Amado Batista da hora. E, apesar das reclamações de muitos dos meus companheiros de almoço e cervejas por aqui, me recuso a ir embora de um bar no meio de uma música dele, espero pelo menos até o fim dela, as vezes até o fim da próxima, canto junto timidamente, sinto a música, dou aquela última olhadinha para a cara dele, um suspiro discreto e daí sim vou embora. Podem reclamar mas num tem jeito, já virou uma espécie de ritual, esperar mais uma ou duas músicas do Amado antes de levantar da mesa ou sair do balcão. Aconselho a experiência, mó energia, só vivendo pra saber.

Outra coisa que está o tempo todo presente onde quer que você vá são os evangélicos. Você sabia que o Norte é a região do Brasil com maior porcentagem de evangélicos do Brasil? Sim meus irmãos, os evangélicos. Nada de pajés, curandeiros caboclos e seres miraculosos da floresta, o negócio aqui é evangélico pregando a palavra. Muitos, em todo lugar. E tem um negócio interessante aqui, que eu não sei como é direito em São Paulo, vai ver que eu que não presto muita atenção quando to lá, mas aqui tem uma certa naturalidade, uma “tranqüilidade” evangélica. Conversa-se tranquilamente sobre Jesus aqui. Nas mesas de padaria, nas redes dos barcos, nas banquinhas de comida. Sem gritaria, dedo em riste ou aquele clima meio ameaçador de fim dos tempos, por aqui o evangelho entrou no tempo distendido da Amazônia, bíblia sabor tucumã. Aqui ele não só é uma verdade a ser aclamada, mas um assunto que preenche a trama miúda do dia a dia, tipo futebol, novela, quem matou quem. Um salminho aqui, é fulano que se converteu, um milagrinho que rolou outro dia , tudo na boa, sem afetação, comendo uma coxinha (outra presença constante pouco citada, açai e tucupi todo mundo fala, e a universal coxinha? ) meio cochilando no barco, toda hora é hora de uma lembrança, de uma pregadinha básica. Deve ser a tal estória “Jesus vive entre nós”, qualquer hora eu trombo com ele comendo um açaí por aqui. Com tapioca provavelmente que ele não é besta. E peixe né, diz que ele gosta... Por esses dias tenho conversado com vários “irmãos”, sempre no barco; um pastor importante da região que me contou da politiquelas daqui (Brasil é uma merda memo), uma moça que ficou na cama deprimida três anos até ir pra igreja, uma macuxi líder dos trabalhadores rurais da região dela- uma mulher legal pra caramba- uma senhorinha que passeava no barco dando uns folhetinhos. Daí que de tanto conversar e ouvir esse povo nesses dias, acabou que eu descobri um negócio sobre mim, uma unanimidade entre todos os crentes com relação a minha vida: Deus tem um plano pra mim. Todos me falaram desse tal plano, uns de maneira mais sutil ( “se vc está onde está, vindo de onde vem e indo para onde vai, isso só pode ser um plano de Deus”, ah tá...), outros mais diretamente (“é um plano de conversão, você vai ver!!”) e outros bem incisivos, meio ameaçadores - deve ser a escola evangélica paulista- “quando chegar a hora Deus vai dizer: Lembra aquela moça da rede ao lado naquele barco? Era uma enviada e você não ouviu, agora é tarde!” E tome o capiroto me levano embora! Daí que eu parei dois dias em Barcelos, uma cidadezinha pequena, pracinha, forró por todo lado, Amado Batista nos estabelecimentos e aquele monte de menina (bonitas, muito bonitas) emperequetada e de salto alto dando volta nas noites do fim de semana. Em Barcelos entendi mais profundamente o tal de “ser brega”. Dizem que o Pará é a terra do brega, quem falou isso não chegou até o Amazonas para conferir. Vai ser brega assim lá em Parintins!! Muita maquiagem, brincos, colares e pulseiras enormes, os cabelos cheios de alguma coisa (que eu não sei o que é, mas que eles tão cheios de alguma coisa eles tão), saltos agulhas cheios de brilhantes e roupas cheia de babados e floreios mil e ombros só de um lado aparecendo. Na pracinha de Barcelos me senti um macaco no SP Fashion Week. Teve uma lá que resolveu listar o que estava errado em mim, começou na unha do pé que tava mal feita, suja e não sei quê e veio subindo até meu cabelo que está “horroroso”, queria me levar pro cabelereiro no dia seguinte. Consegui escapar. Fora o povo dançando. Meu Deus, o que é aquilo, parece um show de malabarismo, contorcionismo, as chinesinha do circu du solei perde praquele povo lá. Fiquei bem impressionado mas não gostei muito não, muito pirotécnico dimais, sou mais o esquema xiadudaxinela memo.

Por fim, mais uma dose de indignação com o esquema de produção e escoamento das coisas aqui. Em Barcelos, o absurdo chega a tal que uma banana é 50 centavos porque vem de Manaus. No meio da Amazônia, a banana chega até o mercado depois de três dias de balsa!!!!!! È simplesmente inacreditável!!! Fora um ou dois produtos da floresta, tudo vem de Manaus!! Dá vontade de voltar pra baixo,(ou ir ate Paraopebas na escola do MST) fazer um curso decente de agrofloresta e voltar pra cá dedicar a vida, o Brasil tem cada uma que nem depois de se escaldar vc deixa de ficar impressionado. Amazônia tá na mão de meia dúzia de prefeitos que simplesmente só roubam, mandar matar e exploram a prostituição infantil, só isso e mais nada. Filhosdaputa.

Enfim, depois peguei mais dois dias de barco, o Rio Negro só vai ficando mais bonito e silencioso, é nítido que o número de habitantes vai se escasseando, é floresta e rio e céu sem fim e com um princípio de relevo montanhoso. Mais conversas, cervejnha em portos de vilazinhas ribeirinhas (e dá-lhe Amado) e mais ditados muito engraçados (devia anotar, já era pra ter mais de cem, na hora guardo e penso: depois eu anoto, daí já viu né). Essas amizades de barco são um barato. Amizades de dois, três dias de viagem, no barco a vida pára e se cria um drama diário paralelo ao mundo de fora do barco, um cotidiano provisório para se criar a tecitura do tempo até se chegar no pouso final. Quem tiver vontade e paciência consegue escrever um tratado filosófico só com base nessas viagens de barco, o que rola com a gente quando está ali, em “pausa”, esperando chegar para vida normal continuar. Enfim... Agora cheguei em SGC, onde estou hospedado na casa da minha amiga Marília, mas vou deixar pra falar disso daqui a alguns dias quando tiver melhor assentado as primeiras impressões sobre esse lugar aqui. Vocês não fazem idéia, é inacreditável, agora o negócio ficou sério, SGC não existe, tudo que eu escrever daqui pra frente é mentira, eu ainda tô em Barcelos e resolvi escrever uma ficção sobre uma cidade imaginária. Inacreditável, imenso, estonteante, incrível, impressionante, essas palavras ficam se repetindo, quem quiser manda uns comentários com adjetivos desse tipo pra me ajudar gente eu agradeço, mas acreditem, é verdade mesmo, a Amazônia é bem mais que isso, falta talento com as palavras para conseguir descrever.

É isso, Bruno.

terça-feira, 24 de março de 2009

olá.
Diretamente da sauna amazônica chamada Manaus para meus dois leitores (contando minha mãe e meu pai). puta lugar quente! Se Belém parecia uma cidade improvável, Manaus é tão urbana que improvável passa a ser a floresta em volta. no colégio, uma profesora para explicar o surrealismo deu o exemplo de uma foca na fila do banco. 'E tão fora de qualquer coisa uma foca na fila do banco, que o que passa a ser esquisito é o banco em volta da foca. manaus é mais ou menos isso. parece Sao Paulo!! No barco pra cá vim conversando com um cara da marinha, um senhor (filho de cearence, óbvio) que já rodou tudo por aqui e conhece bem tudo. Sabe a tal da Zona franca de Manaus? ë um complexo com aproximadamente (pasmem) 600 industrias!!! Dá para acreditar? 600 industrias no olho do coração da Amazônia. lógico que é uma merda né, o cara veio me explicando lá. Aliás, a viagem até aqui foi completamente diferente da outra. o barco era maior, menos pessoas, mais rápido, comida mais bem feitinha, até as pessoas eram muito mais comportadas. Tudo diferente. Em santarém fiqui sabendo que o 11 de maio é o pior barco do trecho Belem-Manaus, várias pessoas tiveram a mesma reação de "só podia ser" quando eu falava o nome 11 de maio. O pior foi o cara que me vendeu a pssagem para cá, que falou que só vende passagem pro 11 de maio se o comprador insistir muito. Vai veno...pelo que eu entndi - e vou poder comprovar , já que tenho algumas viagens anda por fazer - o padrào de viagem é muito mais parecido com a que eu fiz até Manaus. Bem mais digna... e chata!!!
Dexa eu falar um negócio sobre santarém que eu esqueci da outra vez. A cidade é linda, clima ótimo, o Tapajós e maravilhoso, delícias culinárias, o povo massa - cearense de água doce - e tal e tal. Só que eu esqueci de citar um "detalhe" que chama a atençào na paisagem da cidade: um sojioduto enorme da Cargill que sai do porto para uma estrutura também enorme para embarque do grão. Na época da colheita me falaram que fca uma nuvem de fertilizante sando do tal sojioduto e que ningu'm perto respira direito. O vento leva a tal nuvem direto prum bairro da cidade que já começou a apresentar os primeiros problemas de saúde devida a fumaça.
Dai que eu cheguei em Manaus e me despedi do conhecedor lá e das minhas outras duas amigas que fiz no barco - foram criadas no interior de Santarém, no "sítio" e ficaram me contando da vida lá, um barato eu devo fazer cara de super intressado quando o povo come'ça a contar essas estórias porque eles não param mais. Aliás, qulquer hora dessas vou escrever sobre minha pesquisa despreocupada (pesquisa em rede) sobre a relação entre generos no Brasil de cima. Do reggae de Sao Luis, passando pelos corredores da casa de Batisá em Alcantara, pelas noites no 11 de maio e por todas inúmeras conversas "em rede" com o povo que mora aqui, a conclusão é a mesma:não fui criado no mesmo país , nasci e me criei na Noruega onde somos sensatos, ecológicos, conscientes, super conversamos e gozamos muuuuuuuito menos. Girando em torno de tres temas fundamentais: ser corno, ser baitola e ser rapariga (romanticos, feministas e revolucionarios, tremeis!!) a trama míudas da relaçoes aqui de cima desobedece todos os preceitos canonicos da boa vida burguesa. E dá-lhe Calypso!! Ah se o Zaratrustra tivesse acabado por aqui viu. Acho que aquele simbolo do nazismo ia, no mínimo, ser mais redondinho...
Voltando ao barco, cheguei em Manaus, comi um tucunaré ouvindo as boas vindas de um pernambucano e fui correndo ate o outro porto tentar pegar um barco pra sao gabriel. Isso era sabado. os barcos tinham saído na sexta, agora só na outra. o tempo da Amazonia e outro capitulo a parte, com certeza todo mundo já ouvu o papo de que"na amazonia o tempo é outro", ""as distancias são enormes" e sei la mais o que. Voce só entende realmente isso quando está aqui. Perdeu o barco? Só daqui a uma semana, qualquer lugar, quinze horas é do lado, e chove, e as coisas não secam, e as informações não batem e os rios sao enormes e as palmeiras também, e voce sua e a roupa não seca, e agora vai! chove, para tudo de novo, recomeça...tenho duas hipóteses: a primeira é que eu ainda nao entrei nesse ritmo e acabo ficando mais incomodado do que deveria. Com certeza isso é verdade, mas acho que tem uma outra coisa que também conta, mas só vou saber la em sao gabriel. dai eu conto.
Aqui em Manaus estou ficando na casa da Fafa, uma amiga da Bau. Ela é muito legal, nunca me viu e esta me recebendo muito generosamente, é diretora de uma unidade de conservaçao aqui de "perto" e tem conversado muito comigo do seu trabalho e da sua vida no Amazonas. Para se ter uma idéia desse negócio do tempo, ela e o Juça (seu marido que eu nao conheci por que ele esta trabalhando em campo, mas segundo a lidia que estava aqui hoje é mais gente boa ainda que a fafá) trabalham os dois aqui em Manaus e direto viajam e ficam 15, 20 dias sem pisar em casa.Conheci outras pessoas aqui que também sao assim, e meio normal para quem trabalha com ambientalismo por aqui, essa vida estendida,é o tal do tempo amazonico... Pior é els contando que tem que explicar isso pros burocrata doonos das grana dos projetos que estào em Brasília, em Sao Paulo...
Resumindo (depois de muito escrever), o tempo amazonico esta me segurando em Manaus, para diminuir meu tempo nessa cidade das 600 fabricas, vou amanhà (será?) para Barcelos que é no caminho de sao Gabriel e é super bonita e devo chegar em sao gabriel entre sabado e domingo ou segunda (tempo amazonico, tempo amazonico, é tipo um mantra, da pra passar o dia repetindo, o pessoal comenta que ate os relogos aqui se enganam, entre um nascer do sol e outro eles ja deram mais que duas voltas, o dia aqui tem entre 25 e 32 horas européias, depende da chuva e do tanto de roupa que deve permanecer enxarcada) e dai parar um tempinho maior. La em sao gabriel é tudo muito mais pertinho e vai ser mais tranquilo, a média de distncia das aldeias é só tres dias de barco... Por enquanto é isso intão.
Ah, um dos acontecimentos do 11 de maio. uma série de roubos, tênis, relógios, carteiras, celulares, malas inteiras!!! e minha recém desvirginada maquina fotográfica. Devo confessar que fiquei aliviado. Ainda bem que foi baratinha. Talvez eu arrume uma em sao gabriel. Inté intão.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Buenas!Aqui estou eu, diretamente de Santarem, no Pará, em uma lan house fresquinha e carinha. Hoje já faz uns bons quinze dias que eu saí do maranhão e rumei para Belém, onde fui novamente recebido pela Bau e pelo Gusta, anfitriões buena onda (meu portunhol está avançando) e pacientes com meu estilo” desarrume tudo e ataque a geladeira”. Além do bom papo e de uma boa pizza, meu dia e meio em Belém foi surpreendido com um antepeasto de berinjela do gusta, muito muito bom. Pizza e berinjela, São Paulo também tem seus encantos.

Daí que fui pegar o barco para Santarém no outro dia, passei antes no ver-o-peso para dar um passeiozinho básico e bater papo com as erveiras. Estava precisando de algo bom para assaduras. Depois de conversar bastante sobre os poderes miraculosos das poções xóta-de-bôta, pó-de-macaco, espanta-sogra, perfuma –perseguida e outras tantas, duas delas me recomendaram uma pomada de farmácia, com direito a nomezinho científico escrito em um papelzinho e tudo. Vai entender...

Cheguei para pegar o lendário (eu ainda não sabia ) barco 11 de maio com tres horas de antecedencia. Quando via a embarcação já abarrotada (pensava eu), concluí que devia ter chegado antes. Inocente, ainda cheguei a pensar “será que ainda tem lugar” Mal sabia eu... Da hora que eu cheguei (15hrs) até a hora que ele saiu (23hrs) ia entrar muita gente ainda. Muita mesmo.o pior foi o seguinte, inspirado por uma coicidência, resolvi não armar a rede logo de cara. O causo se assucedeu da seguite forma:

São Paulo, algum dia perto do fim do ano de 2008, Bruno e Marcos (conceituado artista contemporâneo da cena paulistana) estão na cozinha da casa deles, conversando, fumando e tomando café. Marcos está contando, como já fez muitas outras vezes, detalhes de sua viagem de dois meses ao Pará. Em dada hora lá, ele começa a comentar de sua viagem de barco pra Santarém, da sorte que ele deu na hora de pegar a passagem o cara foi super simpático com ele e deu o toque dele esperar um pouco para armar a rede no andar de baixo, onde ele ia ficar mais tranquilo. Detalhe, o cara era gay. Daí o marquito contou que a viagem fói ótima, viajou embaixo em um lugar super espaçoso e arejado, do lado da cozinha, banheiro para poucos, enfim se deu bem. Bruno escutou a estória displicentemente mas ela ficou guardadinha.

Voltando à belem, la vou eu vendo aquele barco “cheio” e pensando como eu ia caber lá. Cheguei no cara da passagem, quanto é, como é o esquema , aquela coisa toda. Para minha surpresa o cara foi super simpático comigo, e vendo minha exasperação me falou para não armar a rede ainda, que iam abrir o andar de baixo e eu podia armar a rede em um lugar mais tranquilo, perto da cozinha, com banheiro para pouca gente... Detalhe, o cara era gay. Daí que naquele momento tudo se iluminou, era óbvio que estava acontecendo comigo uma feliz coicidencia, uma generosa obra do destino. Peguei o mesmo barco do Marquito!! Me dei bem!! Essa foi demais, a Amazõnia está estendendo seus braços para mim! É a mãe carinhosa tranquilizando seu rebento, retirando a aflição e colocando a traquilidade e o conforto em seu lugar. Que coisa boa! Puxa vida, imaginem aí, eu todo feliz da vida indo sentar calmamente em um banquinho latera do barco e, tranquilamente, comendo castanha e observando aquele povaréu todo contunuar chegando e armando suas redes nos lugares mais inóspitos e improvaveis daquele espaço. Bagunça, discussão, debates sobre peso e movimento dos corpos (sim meus amigos, é possível dois corpos ocuparem o mesmo espaço, eu vi com meus próprios olhos), gringos abestalhados, bebês chorandinho, um otro lá mais bruto já engrossano, os primeiras frase do tipo “ eu exijo meus direitos”, enfim, uma santa e brasileira baderna. E eu lá, no canto, com aquela satisfação interior me fazendo rir fácil, já de papo com um bombeiro (que, macaco véio daquelas viagens, corroborou a teoria do andar de baixo. Mas, nem precisava, as forças mística marquito-amazônicas já tinham sobrado todo indício de dúvida sobre minha boa sorte) e com duas novas migas que viajavam com suas filhinhas. Elas também já tinha sido devidamente promovidas ao grupo dos escolhidos que iria para o andar de baixo. Eu, um bombeiro conhecedor da região cheio de estórias, duas mulheres legais e boas de papo e duas crianças linda para eu brincar e fazer carinho durante o dia. Provavelmente viriam mais alguns, talvez um ou outro gringo assustado, uma família divertida, enfim, onós quatro (seis, as crianças sorriam e deixavam tudo mais leve) éramos uma ilha de paz e descontração no meio daquele deus-nos-acuda todo. Winners esperando a liberação de sua suíte presidencial, de seus lugares na primeira classe, de seu camarote vip...

Detalhe 2. para contrabalancear o bestseller da novaiorquina que eu li no carnaval, arrumei um “Assim falou Z|aratustra” para minha viagem de barco.Comecei a ler um dia antes e, logo na primeira parte, ele começa descrevendo a decisão de Zaratustra de, após anos vivendo e meditando em uma montanha, descer para viver no meio das confusões humanas e espalhar suas verdades entre eles. Daí que eu fiquei lá, entre uma brincadeira e outra com meus novos amigos, me sentindo uma espécie de zaratustra – que palerma- um ser meio superior e sabedor de verdades que me garantem a paz do andar de baixo, ali, convivendo entre os comuns, condenados ao sofrimento das redes apinhadas e do desconforto. Também fiquei imaginando que Zaratustra teria outra filosofia se ele tivesse vindo da sua montanha direto pro barco 11 de maio, Brasilsão na veia do niet ia dexá ele meio doido, o super-homem ia ser outro, com certeza.

Bom, minha soberba foi tal e tamanha que, enquanto as pessoas continuavam chegando e armando suas redes sei lá onde e acabavam de carregar a pouca carga que iria com a gente lá embaixo, subo para o bar lá de cima para tomar cerveja com a Morena e a carine, minhas duas novas amigas.

Detalhe 3: as duas estavam com suas filhinhas de quatro anos, tinham outraos dois filhos que moravam com o primeiro marido e estavam deixando o segundo marido exatamente naquele momento. Ambos tinham vindo deixá-las na porta do barco.Puta coicidencia. Daí que ficamos lá os três, elas contandos suas estórias e descobrindo as semelhanças, eu rindo de tudo aquilo e me divertindo muito. Quando desci, já meio bêbado e prevendo momentos muito divertidos durante toda viagem, o barco já havia saíodop e estava na hora de armar minha rede lá embaixo.

Não poderia ter sido mais frustrante. |Toda minha arrogância desmoronou feito um castelinho de cartas. Qunando desci lá pra baixo, o que eu vi foi um espaço abarrotado de caixas de tomate fedorento, onde cabiam pouquíssimas redes amontoadas, e que o lugar era uma espécie de sauna malcheirosa e com um barulho ensurdecedor de motor, Fora o cheiro de óleo. Quando subi, o barco estava inteiro acomodado e era impossível armar minha rede lá no meio. O que me sobrou (e para as duas também) foi armar a rede nos corredores laterais onde TODOS que andavam pelo barco passavam. Ou seja, TODAS as pessoas do barco davam uma bundadinha no mínimo leve e, na média, expressiva, digamos assim. Deixei minha perna voltada para o corredor, para ela ser alvos das incontáveis bundas, enquanto minha cabeça ficou coco com coco com uma maranhense lá. No meio é claro, os graciosos pés de uma mocinha de 16 anos, 47 (provavelmente, o que importa é a sensação) bem na minhas costelas. A noite foi beeeeeem longa. De manhãzinha, as seis mais ou menos, decobri que a tal maranhense da cabeça dura era o despertador do barco, já que ela gritava loucamente como se estivesse no quintal de suia casa. Bem no meu ouvido. È claro que a quatro crianças do pedaço acordavam e logo começavam a pular e gritar no único lugar que dava para fazer isso, no espaço do corredor, onde a única coisa que as atrapalhava era minha rede. Puxa vida, que delícia gente, vocês não imaginam... Após levantar e fazer uma meticulosa análise do espaço físico da embarcação 11 de maio, cheguei a conclusão que das duzentas e tantas redes, a minha estava tranquilamente entre as dez piores. Triste fim de para uma alma tão superior...

Característica interessante do 11 de maio é sua composição regional: 18n gringos ( a relação das outras pessoas do barco é um causo á parte, apelidos tipo “cara de minhoca” ,“o predador” e “Gugu” nasceram sem parar, fora comentários sobre a falta de banho deles, suas roupas e comportamento, uma doidera de ficar lá , meio no meio dos dois mundos – tenho que admitir, chegaram a me chamar de gringo palerma por causa da minha mochila e do cigarro de palha – vendo eles se olharem e se interpretarem.), 22 paraenses, treze maranhesnses, 2 paulistas, 7 amazonenses e 188 cearenses!! Tinha mais cearense no barco que em Fortaleza!!! Naõ só no barco como em toda região, A Amazõnia é um Ceará estendido salpicado de uns gringo cara de minhoca perdido no meio (tem muito gringo também, dá medo até)

Bom minha gente, se deixar esse escrito aqui vai muito longe, o que aconteceu nesses quatro dias de barco da um livroo inteiro, e acho melhor parar. Mas quem quiser me lembre de contar ao vivo depois, o dia inteiro parado em almirim, a terra da joelma, lider da banda Caliypso e terra encantada por muitas mulheres e jóias de garimpo.Teve também, a dupla de amigos apelidada de Castanha e Caju, dois paraense que fizeram tres se mijar de rir e uma senhora ter princípio de infarto, os cara eram muito engraçado, aquilo não existe, é indescritível, só conhecendo mesmo. As estórias de garimpo, as famílias inteiras se mudando e contando estórias da vida no norte, as estórias do bombeiro, minhas duas amigas recém desquitadas, o forró no andar de cima, o churrasquinho mal passado que me deixou meio baqueado sendo cuidado pelas redes em volta, a vizinha braba, que nem me conhecia e me batia com força, muita coisa, foram de longe os dias mais intensos e divertidos da viagem até agora. Fora o rio amazonas, os ribeirnho, as canoas, o por do sol, o silenci, a mata sem fim, as noites, coisas que não se escrevem assim de pronto, que não cabem nessas linguagem mais descuidada. Preciso ir agora a lan house vai fechar. Estou em santarem e amanha vou para manaus, mais tres dias de barco. Passei por alter do chao esses dias, o lugar é lindo mas cheio de mansões e pousadas de gente de fora. O povo de lá foi expulso para um bairro fazvelizado mais longe. Achei uma bosta e fui embora logo. Fui em uma comunidade ribeirinha e foi muito legal, o tapajós é limdo e azul ( o amazonas e barreado), tem uma coisa que chama a gente, a cidade de santarém é uma delícia, o Marquito tá certo, um puta lugar para se morar, tranquila, o rio o tempo todo ali emanando, uma atmosfera muito gostosa, aquele tanto de barco, peixe e açaí açai merece um capitulo inteiro, é muito bom, estou retardando minha estada pra comer açai, como tres por dia, é impressionante. a comida daqui é aquém no que não é daqui mesmo, o arroz e o feijão nao sao feitos com muito cuidado, não tem nada demais, a carne de vaca e frango tambem não, mas o peixe , as frutas e as farinha (ou seja, comida de indio) é maravilhoso. o caso é sério mesmo, dá vonmtade morar aqui só pra comer, os sorvete, os sucos os peice mapará, filhote, cara de gato, pacu, e´bom demais, passo o dia comendo, to gastando e alargano a pança, mas tudo bem vale a pena Enfim, fomos em um projeto, dá pra ficar quarenta dias em um barco so no tapajós de comunidade em comunidade, é um absurdo de lindo e de bom, mas não dá, se eu for nao sai mais, esse rio tem um trem, sei lá, preciso ir para manaus e saõ gabriel, amanha devo sair, vou parar em maiis uma comunidade e depois chego lá. Desculpem a rapidez do fim, o comprido do começo e a falta de cuidado com as regras, não da tempo de ficar revisando. Saravá!!!!!!!!!

terça-feira, 3 de março de 2009

BUenas!! Diretamente de São Luiz após um tranquilo retiro de carnaval em Alcantara. Passei uma semana no sítio de uma figura massa chamada Marilda. Fui para lá com a Amanda, uma amiga de SP que eu já tinha esbarrado no FSM, mas tinha sido só isso , esbarrões e passeios rápidos. Somente esses dias pudemos passar um tempo maior juntos. A Amandinha é um nômade - articuladora-nômade cidadã do mundo, então passar quatro dias direito com ela sem nenhuma quebra imprevisível advinda do fluxo tempo-espaço-quântico multidimensional podde ser considerado um privilègio. Ficamos lá, no sítio da marilda lendo, comendo, ouvindo a chuva e dormindo. Choveu praticamente o tempo todo.
O sítios é uma delícia, cozinha na varanda, um monte de redes, um som e um monte de discos, revistas e mais revistas "vida simples" e "Bundas". o sítio tem um monte de espaços além da casa tem uma oficina de papel artesanal, uma lona de circo para festas, cabanas de palha, um viveiro de plantas nativas e mais um monte de futuros projetos a serem realizados: um espaço de experimentação em permacultura, camping para receber o povo mais alternativo, espaço de feitio de fitoterápicos da região, enfim, o lugar respira esse clima de "arte-cultura-tradiçao-
natureza-autoconhecimento. Ou seja, um bom lugar para pasar uma semana de chuva. Fora eu e a amanda estavam no sítio seus moradores. O Edu é um moleque de 17 anos e cabelo tingido de vermelho. Ele não pára quieto, tá sempre zanzando por detrás dos matos lá. Essas caracter´sticas logo lhe renderam o óbvio apelido de Curupira. Ele, obviamente, detestou. Somente no fim da minha estada
descobri que, enquanto eu passei a semana lendo Bundas, ele construiu uma puta casa pros cachorros, grandona - da até pra armar rede dentro- super caprichada. Quando eu comentei que ele podia ter me chamado para ajudar, sua reação foi de silêncio compassivo, mas juro que ouvi umas risadinhas sarcáticas vindas de algum lugar...
Outro morador é o Mazinho, pai do Edu, que vive no sítio desde antes da marilda. Foi graças a ele que me empaturrei de camarão durante esses dias todos, já que le foi diariamente ao mangeu do fundo do sítio fazer o "arrasto". Outro detalhe culinário importante de meu retiro: seriguelas! Não eram muito, é verdade, mas o suficiente para me tranformar durante cinco minutos diários em um criança de dez anos feliz no fundo do quintal da sua vó no interios do Ceará. Seriguela é bom viu...
Voltando aos moradores, por ultimo tem a Kelli, uma piauiense que já morou um tempo em Jacarta e que agorta vive em Alcantara ajudando no dia a dia do sitio. Os moradores sao esses tres, mas de visitantes frequentes ainda tem a Antõnia, uma chilena urbano-hippie figura que esta ancorada em Alcantara ha seis meses. pelo que entendi a dois que ela fala que vai embora na semana que vem... Ainda bem que ela estava por lá, deu pra continuar meu aprendizado em portunhol (estou naquela fase de pensar em "outra" língua", pensar em portunhol, so faltava essa...). E, por último, o Jonilson, um caricaturista de São Luis e pescador nas horas vagas de sua oficina no Ponto de cultura de alcantara. Pescar, desenhar e fazer uma piadinha infame a cada tres minutos essa é a vida boa de jonilson em Alcantara.
Meu carnaval foi pouco agitado -daqui a pouco tô chamando sede de desconforto hídrico- melhor dizendo, meu carnaval foi um tédio total. mas foi bom, tava precisando descansar. Dormi muito, cochilei vária e várias vezes e tirei uma pestaninha com bastante frequencia. De qundo em qundo lia, mas essa atividade dava um sono... Acho que dá para resumir meu carnaval em uma horizontal e homogênea siesta interrompida aqui e acolá em sua confortável monotonia pelo azedinho de uma seriguela, uma boa piada na Bundas (aa materias da "vida simples" so me davam mais sono) e claro, pelas infinitas picada de maruins. Quem me ver por esses dias vai dizer que estou mais magro, pura ilusão, estou é sem sangue mesmo. Só pra vocês terem idéia da profundidade hibernativa do carnaval, li até um best seller de uma estadunidense em busca de si mesma. Ela sofre, sofre, sofre, mas no fim acba tudo bem porque ela encontra um homem mais velho e sedutor... haja
chuva.
Bom, agora que o carnaval acabou e o ano novo começou sinto que é chegada a hora de botar em pratica minha viagem pro norte. Entre hoje e tres dias devo ir a belem e no maximo em uma semana estou em santarem, dias em um barco me esperam, preciso arrumar outro best seller e alguma muitas castsanhas.
Mas antes do fim, uma pequena observaçaõzinha sociológica sobre alcantara. Como não dava para ir para nehuma comunidade em pleno carnaval chuvarento, muito menos ate a base de lançamento de foguetes, e como eu estava em um sítio "super a nossa cara", meu contato mais próximo com o cotidiano de alcantara durante esses dias foram as compras no mercadinho. Puta lugar caro!!! 3 tomates, 1 cbola e um repolho, 5 conto. 1 polpa, 3 batatas doces, 1 pimentaõ e uns paes, 7 rteais!! Alcantara tem mais de cem comunidades "rurais" em seu arredor, a maioria com vegetação e água em abundãncia, como se explica a quitanda da cidade ter tres balcoezinhos onde meia dúzia de tipos de verdura semi murchas se apinhasm todas misturadas. Como assim?!?!? Algum palpite? Sarney? TV?? resist~encia cultural??? Esse país eé muito doido...
Acho que é isso, inté.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

buenas!
Diretamente da Ilha de São Luis para nuestro mundo virtualovski (polonês-portunhol). A virtualidade dos livros nunca me assustaram - questão de hábito por certo - mas esse negócio de blog ainda encaixou direito. Vai ver que é porisso que naõ tenho escrito com mais frequencia. Mas esse dia chegará... Passei quatro dias na cidade de Alcantãra, uma mistura de ouro Preto com Jericoacoara. è um lugar impressionantemente bonito!! Todo canto que se olha dá vontade de passar um tempo se demorando. até um gato dormindo, o pedaço de um braço encostado, uma mancha na parede, tudo lá é motivo de para e ficar meio quieto, olhando. As ruas são todas de pedra e a casaria e colonial (isso no centro, mas é bem grande, um monte de ruas, subidas e ruazinhas tranversais). Tem um monte de praça onde se avista o mar e as ilhar em redor, entre elas, uma faixa de luz e pédios, São luis. a vegetação é abundante, babaçuais e muito verde estão por toda cidade e tomam as antigas ruínas que estão por toda parte. As ruínas estão meio descuidadas, mas esse desleixo acaba criando uma paisagem bonita, as ruínas e aquele monte de plantas crescendo.... Nas paraias, botos (vi uns bem de pertinho) e muitos guarás, um passáro vermelho vermelho que tem aqui e passa toda hora aos bandos, é uma beleza, eles vao de alternando no céu formando uma linha disforme e flutuante, um reisco mal feito que cruza o céu, tem que ver. Para varias, como em São Luis tem sempre um reggae tocando no fundo, descobri que muitos por aqui tem birra com reggae, parece que ele anda descaracterizando as festar tradicionais e tal, toca muito mesmo, é verdade.
A população de Alcantara e em sua imensa maioria composta por negros. Negrões mesmo, bem escuros. Em todo município de Alcantâra são mais de cem quilombos!!! Saõ pequenas comunidades que vivem basicamente da agricultura, extrativismo (oleo de babaçu) e de algum artesanato. Muitos quilombolas saem de suas comunidade e vem morar na cidade de Alcantara. maria Batisá é uma delas. Quilombola de uma comunidade de Alcantara, mora na cidade ha bastantre tempo. Filha de mãe coureira (mulher que dança tambor) e versada nas encantarias, Batisá cresceu - como muitos e muitos por aqui - dentro desse universo.è na casa dela que estou hospedado. Ela é dessas figuras que valem um filme, um documentário, uma fundação, um instituto ou só minha atenção demorada mesmo. Sua casa é uma espécie de restaurante-pousada-pensão. Tem aqueles de fora que estão sempre por lá, comerciantes próximos, tem turistas de um dias, outros de mais dias, tem os filhos dela, o povo da cidade que acaba dormindo por lá, tem ela mesma. Todos, sem excessão, não tem quarto próprio. Cada dia se dorme em um canto, se armam as redes por toda a casa, há sempre uma aposta noturna onde será o lugar com menos insetos (eles dizem pragas). Eu já tenho meu lugar, no fundo da casa em euma palhoça de palha no quintal. Ao relento pegando vento, olhando as árvores. Tudo certo. Sempre tem alguém fazendo alguma comida, bebendo por ali, jogando dominó, jogando papo fora. é um entra e sai constante, peixe e caranguejo, farinha, cerveja e cachaça o tempo todp por ali. No meio disso tudo, Batisá, 62 anos, 1,50m, sempre bem arrumada 9troca de vestido tres vezes por dia), cheia de pulseiras, brinca muito e trata a todos meio como filhos, meio como amigos de longa data e importante dizer, como seres sexuais.
Vez por outra vem uma frase , um ditado para te lembrar que o sexo é parte da vida, parte importante inclusive. Aíás ditados por lá não faltam, muitas vezes rolam vários, um atrás do outro, a linguagem o tempo todo se soltando dela mesma, inventando imagens, se pulando, uma viagem. Batisá teve 16 filhos, nove sobreviveram a desnutrição. o casarão foi comprado por um ex marido francês. Segundo ela, ele queria levar ela embora pra europa. Foi sozinho, tinha muito filho pra criar ainda, me disse. Maria batissá, quilombola, puta mulher legal.
Daí o mundo super globalizeichon continua. Quem mandou cruzar o Maranhão com uma polonesa... A Anna é uma mistura de princesa transiberiana com o Zangief do Street Fighter, olhos glaciais e costumes bárbaros. É cada ma que é melhor nem escrever... Chegou por aqui também o Fir, um argentino gente boa e amante de punk rck e futuro baaterita de uma banda, se ele conseguir grana para compra uma bateria. A última experiência plasmódica misturébica foi uma tarde que passei com um theco, uma polonesa (Anna), um aargentino (Fir), Marcelina (uma quilombola, dois papgaios, três macacos e um vaimaraner (nao sei escrever isso) em uma casa colonial em alcantâra. Ficams lá, falando em theco-portunhol sobre o leste europeu e o Maranhão, bebendo café e ouvindo os macacos gritarem... Sem maiores comentários... Teudo começou quando a Anna encontrou a Marcelina de frente para uma ruína e parou para pedir uma informação. Em dois minutos conversavam em theco. Juro que quase virei de costas e voltei para São Paulo. Acho que vou morar em Londres, sabe como é, uma vidinha mais sossegada, sem tantos estrangeiros e linguas estranhas. As vezes peço para ana falar polon~es. Nao entendo lhufas, maas ela fica diferente, menos estrangeira parece mais familiar...
Depois de Alcantara fomos para Ilha do Cajual, a ma hora de lá.A ilha só tem um povoado, uma 50 casas, todas de barro, não há luz nem agua encanada. A população, toda negra, vive da agricultura, criação , pesca, extrativismo e - triste noticia - de fazer carvão com mata nativa (média de 100 reais de salaro). Andando pel povoado, se passasse uma girafa e sua girafinha andando juro que eu não estranharia, parece que você está na Africa (ou o que eu inagino do seja a Africa, o que me passou a TV). No cajual também há um parque (é esse o nome) de fosséis de dinossauros. Lá, dá mesmo a impressão de se estar em um lugar antigo antigo, meio esquecido, primal. A quantidade de insetos é absolutamente insuportável, fomos embora antes por que nao aguentavaava mais muriçoca, maruim, mutuca maneva e nao sei mai o que, todos incluidos na generica famila "pragas maranenhesys). Na ilha do cajual, durante o inverno, a vida human pequeno-burguesa citadina não é praticamente impossível. A Ana quase teve u surto, nem sua essenci de estivadr russo aguentou. Quanto a mim, duas noites foram suficientes para desmascarar qualquer pretensão de corresponder a alcunha de "super roots" que alguns mal intencionados amigos teimam em divulgar. Na verdade, acho que nem os dinosauros aguentaram aquilo ali, daqui a pouco os caras vao achar vestigios de algum mosquiteiro pre historico, não é possivel aquilo gente. E dizem que ate maio só piora, nao da nem pra imaginar. Tem também as encantarias todas da Ilha, as pedras miraculosas, as mães dágua e currupiras, feitiços e histórias. Em pouco tempo você fica sabendo de um monte de histórias e conselhos,não ande aqu a tal hora, nao durma virado praquele lado, nao faça isto perto daquilo, enfim, o lugar vive imerso nessa atmosfera. Ilaha do Cajual e seus mistérios... E sua pobreza. è uma vergonha falta de assistencia do Estado, é uma vergonha as pessoas terem que fazer carvão para sobreviver em um lugaar rico em biodiversidade como aquele (a natureza é lindíssima, de transçã para floreta amazonica, repleta de babaçuais, impressonante) é uma vergonha não ter um posto de saúde na lha toda e a escola so ter chegado ha quatro anos e é uma vergonha os jovens saírem de lá para a cidade e voltarem cntando historias de sua dependencia em merla, do crime como unica alternativa e da violencia cotidiana que vivem. Mata exuberante, encantaria e um descaso revoltante. tudo isso eu vi na lha do Cajual.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Olá, após = ou - quinze dias de viagem, escrevo agora para aqueles que se interessarem, um resumido relato do que aconteceu por esses dias.

A viagem para Belém foi relativamente tranquila. Fui no ônibus de um coletivo chamado " Revolutas", um fragmeto do PSOL, se bem entendi. Durante o trajeto, o esperado, Alguns Dramins, conversas sobre marx, esquerda, evolução e salamaleques que tais, samba mal tocado, insônia a noite, bancos desconfortáveis, banhos abençoados e amizades passageiras entre passageiros ( que bosta de trocadilho!) Tinha lá o falador, o bêbado, a la dos super comportados, o fundão beberrão, o organizador gente boa e paciente, enfim, a viagem foi o que ela estava prevista para ser. Ou quase. Um acontecimento inesperado literalmente me marcou. Na segunda noite, após beber boa parte de uma garrfa de dois litros de cachaça Pitu com fanta laranja quente, uma revolucionária estudante de filosofia, resolveu dançar uma mistura de reggae com maracatu (tocavam Chico Buarque , "meu guri, ah meu guri olha aí") e em um de seus floreios fui presenteado com um senhor pisão no meu pé já inchado pela viagem. Fiquei dois dias meio mancando. Ainda bem que ela era magrinha...
O Forum foi "aquela cosa", 200 países, 4758 assuntos e 100000 pessoas andando para lá e para cá procurando alguma coisa que receio que elas não tenham encontrado.. Eu fiquei na tenda indígena na maioria do tempo e também no alojamento indígena, uma viagem, 1220 indígena de todo o brasil acampados em uma escola. Fiquei amigo de três indias cariri do Ceará, elas eram muito legais, conversamos muito e ficamos dando risada. acho que foi a parte mais legal do Forum.
Belem é quente demais, e é uma cidade grande com todas vicissitudes de uma cidade grande, seus barulhos, carros e malcheiros. Mas, como me disse algué, Belém é uma cidade improvável. O que aquele aglomerdo urbano está fazendo no meio da floresta sem fim? Essa incongruência chama atenção o tempo todo, parece que a qualquer momento o holograma virtual pode falahar e você ver a verdade, que Belèm não existe, é uma ilusão. Ilusão bem mal feita ainda por cima, é lógico que é impossível uma cidade naquele lugar, só quem é muito bobo não percebe...
O povo é muito legal, tem um jeito de nordestino com seu afeto cheio de risos e vozes altas, uma camaradagem a priori e uma intimidade imediata meio desmedida pra quem vem do sul. Mas é um povo mais tranquilo ao mesmo tempo, carrega mais ternura parece.Com certeza é a presença da água, não dá pra ser seco naquele lugar, você fica mais doce por osmose com a floresta, o rio te amolece, não tem jeito.

De Belém fui para Algodoal, uma praia meio de Água doce, meio de água salgada, bom demais para banho. o lugar tava cheio por causa do Forum e ficou um clima meio de continuação daquela doidera lá. Pra ter uma idéia fizemos um acampamento com doze pessoas, onde haviam sete países (Brasil, França, Belgica, Polonia, Canadá, Espanha E Suiça) e cinco Estados (Pará, SP, MG, Paraná e Rio). è mole? Pra dizer a verdade, já estou meio de saco cheio em conversar em anglo-franco-portunhol, o idioma de um outro mundo possível e monossilábico e participar de conversas com a profundidade de um pires sobre paisagens e comidas do mundo inteiro. Até sobre o Laos eu conversei com um canadense. é muito mundinho exótico thop thuras pro meu estilinho caipira de ser...

Gorra estou em São luís com Ana, uma amiga polonesa que se diz maranhense (?!?!?) e um amigo argentino recém chegado. São Luís é legal, o centro é bem bonito, com seus prédios coloniais caindo aos pedações e cheio de plantas saindo deles. Você fica meio hipnotizado por aqui, chega a noite voce começa a olhar meio viajandão para tudo, as pessoas, as ruas, o nada... Já tinha ouvido falar desse efeito de são Luis nas pessoas, real mesmo, o trem é mei misterioso mesmo... Deve ser bom pacaralho aqui em junho, nos festejos de São João onde saem os grupos de boi. Deve ser algo de fazer qualquer ateu entrar em crise.

Hoje estou indo para Alcantara com Fil e Ana, a antítese física de um negro quilombola. Um monte de quilombo, eu, uma polonesa e um argentino, thop thuras exótico é pouco...

Enfim, aconteceram vários pequenos episódios que valeriam a pena de ser contados mas ficaria muito grande e tal... Uma outra hora eu conto o causo do jabuti cagão e os dois piauienses, o estranho hábitos de uma polonesa de alma maranhense, e os inúmeros momentos hilários de um lugar chamado Aldeia da Paz e seu evangelismo beija flor. è cada uma viu... è isso, hasta hermanos!